Quando Hugh Jackman apareceu como o Wolverine no cinema pela primeira vez no ano de 2000, em X-Men: O Filme, muito se falou sobre como a sétima arte havia falhado em retratar toda a violência e brutalidade do personagem. A imagem de galã de Jackman não tinha muito a ver com a ferocidade do Wolverine das histórias em quadrinhos. Nos anos seguintes, o ator australiano voltaria a interpretar o personagem nos filmes X-Men 2 (2003), X-Men: O Confronto Final (2006), X-Men Origens: Wolverine (2009), X-Men: Primeira Classe (2011), Wolverine Imortal (2013), X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014) e X-Men: Apocalipse (2016). Após tantos anos e tantas aparições de Jackman como Wolverine, o público acabou se acostumando com o ator em tal papel. Todavia, sempre foram muito comuns as reclamações - principalmente dos fãs das histórias em quadrinhos - de que, no cinema, a essência do Wolverine ainda não havia sido de fato explorada. Nos últimos anos, não foram poucos aqueles que também reclamaram da opção feita pelos produtores de não apresentar o personagem no cinema usando o famoso uniforme amarelo visto nas HQs.
É a partir de tal conjuntura que deve ser entendido o modo como o personagem chega agora às telas do cinema, em Logan (2017, direção de James Mangold). Diretor, roteiristas, produtores e o próprio Hugh Jackman se esforçaram bastante para mostrar o herói no cinema de uma forma que ainda não havia sido exibida em nenhum dos filmes anteriores já realizados. Logan é um filme muito violento, intenso, com bastante sangue e que explora toda a brutalidade e ferocidade do Wolverine.
A história do filme se passa no ano de 2029 e podemos ver um Logan/Wolverine (Jackman) tentando deixar o seu passado para trás enquanto ganha a vida trabalhando como chofer. Uma de suas maiores preocupações é cuidar do professor Charles Xavier (interpretado mais uma vez por Patrick Stewart), que agora está em idade avançada e com a saúde física e mental debilitada. Contudo, a rotina de Logan é totalmente alterada quando a mexicana Gabriela (Elizabeth Rodriguez) o procura pedindo a sua ajuda para levar a pequena Laura Kinney (Dafne Keen) até um lugar seguro, uma vez que a garota está sendo perseguida por homens bastante perigosos. Laura é resultado de um conjunto de experiências que objetivavam criar novos mutantes, e a jovem é geneticamente filha do próprio Wolverine, tendo poderes similares aos de Logan. O filme, portanto, conta a história de como o personagem de Hugh Jackman decide proteger Laura e levá-la até o seu destino.
Hugh Jackman e Dafne Keen em cena de Logan.
Logan se caracteriza por ser uma obra muito bem construída. Aqui, nós não temos aqueles gigantescos "fios soltos" que tanto prejudicam a narrativa em muitos filmes. O diretor James Mangold - aliás, o mesmo diretor de Wolverine Imortal - e os demais roteiristas (Mangold também participou da elaboração do roteiro) conseguiram entregar um filme que dialoga com as obras cinematográficas anteriores nas quais Wolverine apareceu, mantendo uma certa coerência com o que já foi visto do personagem no cinema antes, embora o longa explore caminhos que até então não foram explorados pelos outros filmes do universo X-Men. E tendo em vista que Logan foi divulgado como o último filme em que Hugh Jackman aparecerá como Wolverine, diretor e roteiristas lograram êxito em apresentar um filme que encerra de maneira eficaz todo o arco do personagem no cinema, tal como visto até aqui. Neste novo filme, os personagens são bem desenvolvidos, nada acontece por acaso (todas as peças se encaixam ao final) e o espectador consegue entender as cenas de ação. Do ponto de vista da narrativa, portanto, Logan é um filme muito bem feito, e que certamente agradará o público em geral.
A obra é marcada por uma abordagem realista, e não é desta vez que nós vamos ver o Wolverine com o uniforme amarelo das HQs. Não há nada de muito colorido em Logan. O filme tem um visual muitas vezes sujo, seja pelas paisagens secas, quentes e poeirentas, seja pelo sangue que é mostrado em doses nada homeopáticas ou pela sujeira dos próprios personagens. Tanto Logan quanto o professor Xavier estão velhos e desgastados física e mentalmente. Wolverine aparece em boa parte do filme com uma barba densa, muitas cicatrizes, mancando, com a aparência cansada, e o seu "fator de cura" já não funciona tão bem quanto antes. Xavier, agora um nonagenário, está doente e necessita de remédios para não ter convulsões, embora em alguns momentos do filme o espectador possa ver que o poder do personagem de Patrick Stewart ainda seja grande.
O novo filme de James Mangold usa e abusa das cenas de violência, e aqui nós temos um Wolverine como nunca foi mostrado no âmbito da sétima arte. Com as suas garras, Logan retalha os seus inimigos de maneira feroz, vemos a pele dos personagens sendo rasgada e sangue, muito sangue, é preciso avisar. Mesmo o corpo de Logan também é mostrado com todos os seus ferimentos pela câmera. Se por um lado o Wolverine parece mais frágil do que nunca, por outro, é justamento por vermos o quanto ele está ferido que a brutalidade do personagem é ainda mais realçada. Só mesmo alguém tão bruto como Logan pode seguir em frente com um corpo extremamente machucado, tal como se vê no filme. Hugh Jackman entrega aqui uma interpretação intensa, na qual o seu olhar e as suas expressões faciais transparecem ao mesmo tempo fúria, cansaço, desespero e melancolia.
Uma grata surpresa do filme é o desempenho da jovem atriz Dafne Keen. No papel de Laura (ou X-23), Keen constrói uma personagem que é bastante complexa, uma vez que é em alguns momentos muito violenta e autônoma - quase que como uma adulta em miniatura -, mas em outros carrega também um ar infantil (como quando usa um chamativo par de óculos escuros ou demonstra ter aquela curiosidade tão característica de uma criança). O olhar de Laura é por vezes duro, e por ele podemos ter uma ideia muito clara do quanto ela já sofreu até encontrar Logan. Com os seus poderes, Laura não fica muito atrás de Wolverine no quesito violência, e é interessante ver uma personagem tão pequena e de aparência frágil lutando ferozmente e tirando a vida de inimigos muito maiores do que ela.
Logan se destaca por não ser apenas um simples filme de ação. As cenas de perseguição e de lutas se fazem presentes, é verdade, e foram muito bem realizadas. Mas o filme se ocupa também em explorar as relações entre os personagens. Assim, Logan e Xavier aparecem fortemente unidos por todos os acontecimentos do passado, onde passaram juntos por vários episódios difíceis. Os personagens de Jackman e Stewart tentam se ajudar um ao outro, e o filme aborda bem a relação dos dois personagens, que é de uma amizade muito grande. Já a relação entre Logan e a pequena Laura é muito bem desenvolvida, sendo inicialmente marcada por uma certa desconfiança mútua entre os dois, evoluindo paulatinamente para um estágio em que os dois passam a se preocupar muito um com o outro, o que abre espaço para que haja afeto entre eles.
Ainda que de maneira sutil, há também um pano de fundo político na obra. Nestes tempos em que o presidente norte-americano Donald Trump procura fechar as fronteiras dos Estados Unidos para os imigrantes, inclusive com o projeto de erguer um muro na fronteira entre os EUA e o México, é curioso que uma parte da ação de Logan se desenrole justamente nesta região do mundo, na divisa entre esses dois países. Laura é fruto de experiências realizadas em um laboratório no México que é de propriedade de uma corporação norte-americana. E o filme sugere que aqueles que agem em nome de projetos de ambição e poder acabam, cedo ou tarde, sofrendo as consequências de suas ações. No laboratório onde Laura foi criada, as crianças mutantes ali produzidas se rebelam contra os cientistas que as criaram. O sistema responsável pelo surgimento de Laura traz dentro de si os conflitos capazes de abalar - ou até destruir - as suas próprias estruturas. O filme de James Mangold parece apostar na ideia de que o desejo por ambição e poder gera sempre um processo de violência.
No universo dos X-Men, as relações entre os mutantes e os seres humanos "normais" sempre foram desenvolvidas a partir de uma perspectiva onde os temas do preconceito e da intolerância se fizeram presentes. Os poucos mutantes que vemos em Logan, assim como aqueles dos outros filmes e de muitas histórias em quadrinhos, são vítimas do preconceito e da intolerância de homens que não conseguem conviver com as diferenças. Os vilões deste novo filme do Wolverine enxergam os mutantes não como pessoas, mas sim como "armas" a serem usadas para objetivos específicos, ou a serem descartadas quando demasiadamente "perigosas". Nos dias de hoje, quando vemos no mundo real manifestações de preconceito e intolerância dos mais variados tipos, uma obra como Logan se torna ainda mais interessante e plena de significado.
E quando o filme termina, após apresentar uma história muito bem contada e de tirar o fôlego, percebemos que, em um filme com tantas qualidades, o uniforme amarelo do Wolverine das HQs nem fez falta.
