Por hoje eu só queria dizer
Enfaticamente
Que eu me recuso
Eu me recuso a ver os jornais de
hoje
Com as mesmas notícias de ontem
As mesmas notícias de anteontem
As mesmas notícias da semana
passada
As mesmas notícias do mês passado
O mesmo caos de todos os anos.
Eu me recuso a aceitar
Que tudo permaneça quase sempre
tão igual
Sob o céu do meu país
E poeticamente escrevo
Estes breves versos de
inconformismo
Na esperança de que a poesia,
talvez,
Venha a aplacar
Um pouco dessa minha angústia.
Eu me recuso a continuar
Passando fome e apanhando da
polícia
Eu me recuso a ser roubado
De maneira pacífica todos os dias
Por aqueles que deveriam
Eticamente
Governar este país
Eu me recuso a permanecer
Jogado em um canto
Num corredor de hospital
Aguardando calmamente
Que a morte me leve daqui
Eu me recuso a continuar sendo
Humilhado, xingado,
Massacrado
Cotidianamente
Chamado de “vagabundo”,
“baderneiro”,
“Macaco”, “animal”, “lixo”,
“Bicha”,
“Indecente”,
“Preguiçoso”, “maconheiro”.
Não, eu não aceito
Que me espanquem, que me
torturem,
Que me prendam sem motivo,
Que me estuprem, que me matem,
Que me envenenem,
Que me enfiem goela abaixo
O que eu não quero engolir
E se por um acaso me forçarem a
isso
O vômito será a minha resposta
Vinda direto do estômago
Regurgitarei de volta,
Em cima daqueles que me maltrataram,
Tudo aquilo que eu não quiser
digerir!
Eu me recuso
A admitir que me retirem o
direito
Um dos mais importantes direitos
De qualquer pessoa que pise neste
mundo
O direito sonhar
Com uma vida que seja
Pelo menos só um pouquinho
Melhor
E menos desgraçada.
Pois se o mundo nem sempre é um
lugar justo,
Ele não há de ser injusto todos
os dias!
Pois se o bem nem sempre tem
espaço,
O mal não há de vencer todos os
dias!
Pois se a esperança nem sempre dá
as caras,
O desespero não há de reinar todos
os dias!
Pois se o que é correto nem
sempre prevalece,
O que é errado não se sustentará
todos os dias!
Pois se a vida nem sempre é
fácil,
Ela não há de ser tão difícil
todos os dias!
Pois se os nossos caminhos nem
sempre são tranquilos,
Eles não hão de ser conturbados
todos os dias!
Pois se a verdade nem sempre é
dita,
A mentira não há de ser ouvida
todos os dias!
Pois se a liberdade nem sempre
nos abraça,
Os nossos grilhões não hão de ser
eternos...
Então, livremo-nos deles!
E é com este fiapo de fé
Que ando pelas ruas da minha cidade
E teimo em seguir adiante
Porque eu me recuso
Definitivamente, eu me recuso
A passar a vida inteira
Tão apequenado,
Tão violentado
E tão perdido.
Agora, perto do fim...
Admito que o medo é uma constante
E que o horizonte sombrio me
assusta,
Mas, ainda assim, eu levanto a
minha voz
Ainda assim eu teimo
Eu insisto!
Eu persisto!
Pois esta é a razão destes versos,
Destes breves versos de inconformismo,
O meu canto é para que todos
saibam
O meu canto é para que eles
(Eles que pensam que podem fazer
tudo,
Eles que são hipócritas,
canalhas,
Eles, respeitáveis filhos de uma
puta,
Eles, os donos do poder)
É para que eles saibam
De uma vez por todas
Que eu me recuso!
Eu me recuso!
Me recuso!