sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

"John Wick: Um Novo Dia Para Matar" (2017)

Quando o filme De Volta ao Jogo (2014, direção de Chad Stahelski) chegou aos cinemas, fomos apresentados ao personagem John Wick (interpretado por Keanu Reeves), um homem que buscava viver de maneira tranquila depois de passar anos trabalhando como um assassino profissional. Todavia, após o falecimento de sua esposa, Wick teve a sua casa invadida, o seu carro roubado e o seu cão morto por mafiosos russos, acontecimentos que fizeram com que o personagem vivido por Reeves iniciasse uma espetacular vingança contra tais criminosos. Naquele filme, os espectadores puderam conhecer um pouco das habilidades de John Wick, que fora definido por um dos outros personagens da obra como "um homem de foco". De Volta ao Jogo nos mostrou John Wick como um homem que conversa pouco, mas que é capaz de agir de maneira extremamente violenta contra aqueles que o fizeram sofrer.

Com o bom desempenho do filme nas bilheterias, os produtores decidiram realizar uma sequência para a obra, também dirigida por Chad Stahelski. E assim chegou aos cinemas recentemente o segundo capítulo da história de John Wick, que no Brasil recebeu o título de John Wick: Um Novo Dia Para Matar (2017). Novamente temos Keanu Reeves como o personagem principal, e este segundo filme se caracteriza por ser uma eficiente sequência da obra anterior, não só desenvolvendo a história de maneira coerente com o que vimos em De Volta ao Jogo, mas também aprofundando alguns aspectos do primeiro filme.

Logo no início de John Wick: Um Novo Dia Para Matar, podemos ver o personagem de Keanu Reeves encerrando uma "questão" do primeiro filme: após uma sequência de cenas de ação muito bem executadas, nas quais John Wick mostra toda a sua fúria, o personagem enfim recupera o seu carro, que havia sido roubado no primeiro filme. É só depois de este assunto ser finalizado que a história propriamente dita do segundo filme começa a ser de fato contada. Wick tem uma espécie de "dívida" a pagar, agora que matou tantas pessoas na sua vingança, e o personagem terá de assassinar uma integrante de uma organização criminosa em função disso. Contudo, há um detalhe problemático: o mandante do crime é irmão da vítima e, após a mesma morrer, John Wick acaba tendo a sua cabeça colocada a prêmio, passando a ser perseguido por assassinos vindos de todas os lugares imagináveis.

 Cena do filme. Mais uma vez, o ator Keanu Reeves
encarna o personagem John Wick.

O filme se aproveita muito do fato de já termos sido apresentados ao personagem principal na obra anterior. Assim, a opção feita pelo roteiro e pela direção de John Wick: Um Novo Dia Para Matar não é a de ficar "explicando" as coisas ao espectador de maneira didática, afinal, simplesmente não há necessidade disso. A obra nos mostra mais detalhes do universo de John Wick apenas à medida em que esses detalhes são importantes para a compreensão da própria narrativa. Assim, os aspectos do modo de funcionamento das organizações criminosas presentes no filme são abordados de maneira bastante orgânica. As cenas de ação, tal como aquelas do primeiro filme, são mais uma vez muito bem executadas, com ágeis movimentos de câmera, efeitos visuais convincentes e, é claro, as cenas de luta muito bem coreografadas, onde os personagens parecem ora executar movimentos dignos de artes marciais ora lutar de maneira mais "selvagem". As cenas de ação fazem sentido dentro da narrativa, e o espectador consegue compreender o que está acontecendo. As cenas de ação também dialogam com a estética dos jogos eletrônicos, seja pelo ângulo em que foram filmadas seja pelo modo como o personagem principal atira. Keanu Reeves novamente acerta na sua interpretação do personagem, não tanto por suas qualidades como ator, mas, assim como no filme anterior, principalmente pelo fato de John Wick ser um personagem que exige justamente um ator, digamos, mais "inexpressivo". O restante do elenco também está muito bem no filme, embora alguns atores tenham pouco tempo de tela, como é o caso de Laurence Fishburne, que poderia ter sido mais bem aproveitado.

Para além das qualidades técnicas do filme, este segundo capítulo da saga de John Wick também chama a atenção pelo modo como aborda o caráter violento da natureza humana. É curioso notar que, apesar de Wick manifestar o desejo de deixar o mundo dos crimes e dos assassinatos, ele simplesmente não consegue evitar a presença de toda essa violência em sua vida. Pois como podemos perceber, se os acontecimentos "do destino" o fazem agir como um assassino constantemente, o próprio personagem parece demonstrar uma dificuldade tremenda de se afastar do seu ofício de matar outras pessoas. John Wick pode até enterrar as suas armas em um lugar de sua casa, mas ele nunca se desfaz definitivamente delas. O seu arsenal está sempre à sua disposição, de uma forma ou de outra.

Cartaz em inglês do filme John Wick: Um Novo Dia Para Matar.
A peça publicitária sintetiza um aspecto importante da obra: no
segundo filme da saga, Wick é caçado por todos.

Merece destaque também o fato de que, apesar de todas as cenas violentas que vemos no filme - tiros na cabeça, socos, chutes, lápis sendo usado como arma, etc. -, os personagens buscam sempre ocultar tal violência em algum momento da narrativa, em um notável esforço por construir uma aparência de "civilidade". O hotel Continental, que hospeda criminosos e assassinos de todos os tipos, possui as suas próprias regras, e chega a ser cômico ver personagens que, momentos antes no filme, quase se mataram, passando a se tratar como verdadeiros cavalheiros assim que entram nas dependências do lugar - mesmo que às vezes este momento de calma seja curto. Em um dos diálogos mais interessantes do filme, Winston (Ian McShane), o dono do hotel, afirma que os homens precisam de regras, pois, sem elas, viveriam como os animais. A fala do personagem é repleta de significado dentro do filme, pois os espectadores sabem bem que, no fundo, os personagens do universo de John Wick, mesmo com todas as suas regras e aparência "civilizada", já vivem como verdadeiros "bárbaros", talvez até mais selvagens do que os próprios animais.

Nesta perspectiva, vale destacar também a cena em que John Wick troca tiros com um homem dentro de uma estação de metrô: os dois personagens tranquilamente caminham enquanto disparam balas um contra o outro. Com a ajuda de silenciadores em suas respectivas pistolas, eles atiram de maneira discreta e são praticamente invisíveis a todas as outras pessoas que andam pelo lugar. Wick está frequentemente de terno, bem vestido, embora uma pequena mancha de sangue em seu colarinho esteja quase sempre ali para nos lembrar que, por trás de toda a sua elegância e discrição, há bastante fúria e violência. Em outro momento do filme, o personagem principal troca tiros com criminosos dentro de um museu de arte contemporânea, e aqui é como se o roteiro estivesse a nos sugerir que, apesar de o homem ser capaz de produzir cultura e de "civilizar-se", ele ainda pode agir como uma besta extremamente violenta.

Mais do que um ótimo filme de ação, John Wick: Um Novo Dia Para Matar pode ser descrito como um comentário irônico a respeito da aparência de "civilidade" tantas vezes buscada pelo homem. Ao contar mais um capítulo da história de John Wick, o filme defende a ideia de que, por mais que o homem tente ser "civilizado" e seguir regras, a violência é um aspecto sempre presente. Haverá uma saída para este dilema? Trata-se de uma questão complexa, com a qual não apenas John Wick terá que lidar em um próximo filme, que certamente será produzido, mas também nós, os seus espectadores. Afinal, em nosso mundo, "civilização" e "barbárie" quase sempre andam lado a lado.



domingo, 5 de fevereiro de 2017

Buchholz e os livros

As obras do artista alemão Quint Buchholz chamam a atenção por misturarem realidade e fantasia, por vezes desafiando a imaginação de quem as vê. Nascido em Stolberg, em 1957, Buchholz cresceu em Stuttgart, tendo posteriormente estudado história da arte, pintura e design gráfico na Academia de Arte de Munique.

Buchholz é pintor e ilustrador desde 1979, e entre as suas produções destacam-se as imagens que mostram livros ocupando os mais inusitados espaços, assumindo o lugar de outros objetos. Por meio dessas obras, Buchholz nos permite pensar sobre a capacidade dos livros de estimularem a imaginação humana, permitindo a construção do conhecimento e a obtenção de novos olhares sobre a realidade do mundo. O artista ainda explora o papel doutrinador que os livros também podem eventualmente exercer.

Figura 1.: Lob der Bücher (1999), de Quint Buchholz.

É interessante notar como Buchholz brinca com a capacidade de um livro nos levar para outros lugares, por meio da imaginação. Em Lob der Bücher (1999), por exemplo, um homem vestindo apenas um calção de banho corre sobre a neve em uma paisagem gelada, dirigindo-se ao encontro de um grande livro aberto que ostenta em suas páginas a imagem de uma praia.

 Figura 2.: Junge mit Buch (2013).

Já em Junge mit Buch (2013), um garoto segura um livro bem próximo dos olhos, como se o livro fosse um binóculo. Aqui, o artista nos leva à questão: o objeto ajuda o garoto a ver mais longe ou bloqueia a sua visão? Afinal, os livros podem não apenas libertar as nossas mentes ou expandir os nossos horizontes. Os livros também podem cegar os seus leitores quando apresentam doutrinas e estimulam os fanatismos. É o que vemos, por exemplo, em Lesender Mann (III.), obra de 2013 na qual um homem tem um livro amarrado ao seu rosto, e as páginas do livro estão praticamente coladas aos olhos do sujeito, impedindo que ele veja o mundo ao seu redor.

Figura 3.: Lesender Mann (III.), obra de 2013.

Por meio dessas e de várias outras obras, Quint Buchholz nos faz pensar na beleza e nos mistérios que envolvem este fantástico objeto inventado pelo homem: o livro. As obras de Buchholz nos instigam a uma reflexão sobre as múltiplas facetas dos livros. Mais do que belas homenagens a tal invenção humana, o que o artista faz é nos sugerir que os livros não possuem um significado único em si mesmos, mas possuem um certo valor dependendo das formas como os usamos.


As obras de Buchholz podem ser vistas no site <http://www.quintbuchholz.de/>. Vale a pena conferir!

Figura 4.: O artista alemão Quint Buchhholz, em foto 
de divulgação no seu site oficial.

(Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia, no dia 20 de maio de 2016.)

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Donald Trump: um novo capítulo na História dos EUA

Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade. Na realidade, a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança. Tal tem sido o sofrimento paciente destas colônias e tal agora a necessidade que as força a alterar os sistemas anteriores de governo. (Declaração de Independência dos EUA, 04 jul. 1776. Disponível em: <http://www.uel.br/pessoal/jneto/gradua/historia/recdida/declaraindepeEUAHISJNeto.pdf>.)

O trecho acima faz parte da Declaração de Independência dos EUA, documento que pode ser considerado uma espécie de "certidão de nascimento" daquele país. Os EUA se formaram a partir das chamadas "treze colônias" que a Inglaterra possuía na América do Norte. A colonização inglesa naquela região tornou-se mais consistente a partir do início do século XVII, e durante muitos anos a Inglaterra não se preocupou em exercer um pesado controle sobre aquelas colônias. Todavia, a postura assumida pela metrópole mudou em meados do século XVIII, quando o governo inglês buscou aumentar a carga tributária sobre as treze colônias e estabelecer ali verdadeiros monopólios comerciais. Os colonos, então, se valeram de argumentos bem próximos das ideias de filósofos iluministas como John Locke para romper os laços com a Inglaterra e construir no Novo Mundo um país livre e independente. Do ponto de vista dos colonos, o governo da metrópole pensava apenas em si mesmo, agindo sempre em interesse próprio e cerceando os direitos daqueles que viviam no território que viria a ser os Estados Unidos. A rebelião contra os injustos arbítrios de um governo era, assim, racionalmente justificada, de acordo com os princípios iluministas da época.

A busca pela independência dos EUA foi no fundo uma busca por autonomia política e liberdade econômica. É algo que está presente na origem daquele país. Posteriormente, houve o desafio de organizar politicamente a nova nação. O que deveria ser mais forte, o poder central do governo federal ou os poderes locais dos governos estaduais? A solução para este problema veio com a Constituição de 1787: os EUA se afirmaram como uma república federativa presidencialista, onde ao mesmo tempo em que se estabelecia um poder central forte, também se procurava garantir uma boa dose de autonomia para os governos estaduais. Um delicado equilíbrio de forças entre as duas esferas de poder, é verdade, tanto que este equilíbrio já foi ameaçado e até mesmo rompido em alguns momentos da história dos Estados Unidos, como a Guerra de Secessão (1861-1865) e as discussões em torno dos direitos civis dos negros no início dos anos 1960.

Uma das causas da Guerra de Secessão foi o choque que se deu entre os estados do Sul, que queriam autonomia para decidir as suas políticas alfandegárias e a manutenção da escravidão, e os estados do Norte, que defendiam que o governo federal dos EUA deveria tomar decisões válidas para todo o território nacional no que dizia respeito a tais temas. A guerra, que durou quatro anos, colocou de um lado os defensores de um poder central forte, e do outro os defensores da autonomia dos poderes estaduais.

Já em 1962, quando o estudante negro James Meredith ganhou nas cortes federais o direito de ingressar na Universidade do Mississippi, o próprio governador do estado impediu a sua entrada no campus daquela universidade. Ross Barnett, o governador do Mississippi, era extremamente conservador no que dizia respeito à questão racial e era à favor da política de segregação em seu estado. Meredith só conseguiria entrar na universidade com a escolta de agentes federais. Mas os dias que se seguiram a toda essa discussão foram de violência nas ruas entre os racistas de um lado, e os defensores dos direitos civis do outro. Novamente, o poder do governo federal se chocava com o poder a nível estadual.

Se o processo de formação dos EUA não foi tranquilo, a política externa daquele país tem sido historicamente marcada por transformações ao longo do tempo. O isolacionismo sobretudo em relação às potências da Europa foi a opção adotada pelo presidente James Monroe na primeira metade do século XIX. A intenção era tirar todo o continente americano da influência europeia e estabelecer os EUA como o país a ter o controle político e econômico sobre todas as Américas. Não foi por acaso que o governo norte-americano apoiou as independências dos países da América Latina em relação às suas metrópoles europeias naquela época. 

Já na segunda metade do século XIX, ganhou força nos EUA a ideia do melting pot, segundo a qual as pessoas das várias partes do mundo que migravam para os Estados Unidos estavam ajudando a formar aquele país. Os imigrantes eram vistos como essenciais não só para o crescimento populacional dos EUA, mas também para que a ocupação de todo o território nacional fosse garantida. Contudo, se os imigrantes britânicos, germânicos e escandinavos eram relativamente bem recebidos pelos norte-americanos no final do século XIX, os latinos, por sua vez, sofriam com a xenofobia e o preconceito.

A população dos EUA saltou de 31 milhões de pessoas, em 1860, para mais de 90 milhões em 1910. As restrições à crescente imigração não demorariam a aumentar. Na década de 1920, quando os EUA eram governados por presidentes do Partido Republicano, os imigrantes passaram a enfrentar um preconceito cada vez maior quando chegavam até a terra do Tio Sam. Já naquela época, leis foram criadas para tornar a entrada de estrangeiros no país mais restritas. As justificativas eram as de que os estrangeiros roubavam os empregos dos norte-americanos e traziam para a América as "perigosas ideias" do anarquismo e do socialismo.

Lembramos aqui todos estes instigantes momentos da história dos EUA porque eles nos ajudam a entender todo o pano de fundo político e ideológico das medidas adotadas pelo presidente Donald Trump, bem como o desafio representado por Trump aos próprios princípios que estão na gênese dos Estados Unidos da América.

A eleição de Donald Trump para o cargo de presidente dos Estados Unidos da América foi, de fato, um acontecimento singular dentro da história norte-americana. O empresário e personalidade televisiva, que até pouco tempo atrás não tinha experiência política, chegou ao posto que agora ocupa após derrotar a candidata democrata Hillary Clinton, em um processo eleitoral bastante disputado. É claro que o sistema eleitoral norte-americano deu uma "ajudinha" a Trump, afinal, ele foi eleito mesmo sem ter conquistado a maioria dos eleitores.

O infográfico abaixo mostra como foi possível a vitória de Trump:




Trump só venceu as eleições porque conseguiu a maioria de votos nos estados que lhe garantiram a maioria dos votos dos "delegados" no Colégio Eleitoral dos EUA. Para uma parcela importante da população norte-americana, a legitimidade do poder de Trump, embora ele tenha se tornado presidente conforme as regras vigentes, é limitada. Não é por acaso que após as eleições, muitos protestos contra Trump já aconteceram nas ruas dos Estados Unidos.

A campanha eleitoral de Donald Trump foi recheada de polêmicas, especialmente em função das suas declarações a respeito de alguns temas bastante delicados. Algumas promessas de campanha acabaram sendo colocadas em prática já no início do seu mandato, quando o presidente assinou recentemente decretos determinando a construção de um muro na fronteira dos Estados Unidos com o México e a proibição da entrada nos EUA de pessoas vindas de alguns países de maioria muçulmana. Ademais, Trump também chamou a atenção ao determinar a saída dos Estados Unidos da chamada "Parceria Transpacífico" (TPP), acordo comercial que envolvia alguns países das Américas, da Ásia e da Oceania.

As ações de Donald Trump parecem indicar que estamos diante do início de um novo e incerto capítulo da história dos Estados Unidos. Um capítulo que apresenta não só rupturas, mas também a preocupante retomada de alguns sentimentos historicamente presentes nos EUA.

O protecionismo prometido por Trump rompe, em nossa avaliação, com o próprio princípio do livre-comércio que está presente na fundação dos Estados Unidos. Como dissemos acima, foi a ameaça à sua liberdade econômica que fez com que os habitantes das treze colônias decidissem enfrentar a Inglaterra para garantir a sua independência e formar os EUA enquanto um país livre e independente. Trump, portanto, parece ir contra o princípio do livre-comércio, que foi tão marcante no processo de independência dos EUA.


  
Ademais, a postura autoritária de Trump em seus discursos e nas suas ações não nos parece muito condizente com a essência da própria Declaração de Independência dos EUA. Neste documento, percebemos claramente a presença da ideia segundo a qual os governos devem existir para garantir os direitos dos governados, de modo que os governantes saibam de fato representar a vontade do seu povo e agir conforme as leis. 

Não parece ser o  caso quando acompanhamos todo o debate em torno da entrada nos EUA de pessoas vindas de alguns países de maioria muçulmana. Trump quer proibir a entrada dessas pessoas nos Estados Unidos, mas uma parcela da população norte-americana dá sinais de que não concorda com o seu presidente. Quando ontem, dia 03 de fevereiro, o Tribunal Federal de Seattle suspendeu o decreto de Trump que impede a entrada de imigrantes nos EUA, o que vimos foi, no fundo, uma tentativa de lembrar ao presidente de que, enquanto governante, ele não pode fazer tudo o que quer. Afinal, só para lembrar uma ideia cara a alguns pensadores do Iluminismo, deve existir uma lei que esteja acima de todos, inclusive de quem governa. 

A postura de Trump também é problemática porque, do nosso ponto de vista, há interesses muito "específicos" em jogo. Recentemente, a imprensa lembrou que Trump poupou do seu veto as pessoas oriundas de países onde ele fez negócios. Aqui surge a questão: será que Trump seria considerado um bom governante pelos autores da Declaração de Independência dos EUA? Não estaria ele preocupado em primeiro lugar apenas com seus interesses pessoais? Afinal, ele até demitiu a procuradora-geral Sally Yates por esta não ter concordado com ele. Trump parece estar em busca apenas da afirmação de suas vontades individuais, custe o que custar, e não importe o que dizem as leis do seu país. Se a busca pelas realizações individuais não é totalmente estranha à cultura política dos EUA, há que se lembrar também que dentro de tal cultura o poder do governante não é absoluto, e ele não pode governar pensando apenas nos seus interesses e em suas convicções. Deve haver o consentimento por parte dos governados.

O desafio que Trump representa à história norte-americana não está apenas no rompimento que ele está realizando em relação a importantes ideias que estão na gênese dos EUA, tais como a liberdade econômica e a limitação ao poder do governante. Trump também incomoda porque ele parece trazer de volta ao primeiro plano uma política de segregação aos Estados Unidos. E o problema é que, especialmente aqui, Donald Trump não está sozinho. 

A sua xenofobia não é nenhuma novidade na história dos EUA, e neste mundo pós-11 de setembro onde cresce o medo em relação a grupos terroristas, não devemos estranhar que Donald Trump queira endurecer a política de imigração em seu país, afinal, com toda a certeza, há uma parcela da população norte-americana que concorda com o seu presidente neste ponto. Os muçulmanos representam o perigo do terrorismo dentro dessa visão de mundo, enquanto que os estrangeiros, de modo geral, voltam a ser vistos como uma ameaça aos empregos dos estadunidenses, notadamente depois da crise econômica de 2008, que tirou o emprego de muitos norte-americanos. Erguer barreiras contra os estrangeiros é peça fundamental na política de Trump para fazer "os Estados Unidos grandes novamente".

Trump age para colocar em prática tudo aquilo em que ele acredita, mas para isso ele busca moldar o seu discurso tendo em mente uma parcela específica da população do seu país, aquela parcela conservadora e que foi afetada pela crise econômica. Aquelas pessoas que concordam com ele e que darão apoio a ele. Resta saber se tal apoio será suficiente para silenciar as vozes daqueles que discordam de Trump.

Afinal, uma questão que se coloca aqui é a que diz respeito à faceta autoritária assumida por Donald Trump em seus discursos. Ao tentar se colocar como um governante forte, haverá o risco de que suas ações sejam interpretadas como uma tentativa de fortalecer excessivamente o poder central? A médio e longo prazos, como os governadores dos estados vão reagir em relação às ações do presidente norte-americano? Há alguma chance de vermos mais uma vez nos EUA violentos atritos entre o governo federal e os governos estaduais? E o que pensarmos do protecionismo econômico anunciado por Trump? Será esta política viável em um mundo que é marcado pela globalização e por um sistema multilateral de comércio? E quais serão as consequências de sua política de imigração na política externa dos EUA nos próximos anos?

Os discursos e as ações de Trump parecem ir de encontro às bases de uma ordem mundial que se consolidou nas últimas décadas. Resta-nos aguardar o que os próximos anos nos reservam. O processo eleitoral norte-americano acabou permitindo que uma figura tão caricata quanto a de Donald Trump chegasse ao posto de presidente dos EUA. Figura caricata, é verdade, mas que infelizmente é capaz de mobilizar sentimentos que, se não haviam sido extintos, julgávamos inofensivos. Tais sentimentos que permitiram que Trump assumisse a presidência nos Estados Unidos. Sentimentos de xenofobia, intolerância e conservadorismo.

Por tudo isso, Donald Trump se apresenta não só como um intrigante capítulo da história dos EUA, mas também como um alerta a todos aqueles que, nos quatro cantos do mundo, defendem um mundo onde haja mais liberdade, onde o poder dos governantes tenha os seus limites e onde as diferenças étnicas e culturais sejam respeitadas. Aguardemos o que vem a seguir.

Biblioteca Escolar



Há algumas semanas um amigo publicou no Facebook uma estatística que me fez pensar no hábito da leitura e na minha relação pessoal com os livros. Segundo a postagem, “87% dos não leitores nunca foram presenteados com livros na infância”. Ao me deparar com tal informação foi impossível não rememorar a minha trajetória pessoal.

Pois bem, nunca ganhei um livro sequer na minha infância e devo dizer que os estímulos à leitura eram bastante raros naquele período de minha vida. E, no entanto, eu desenvolvi uma verdadeira paixão pela leitura, de modo que hoje os livros fazem parte do meu cotidiano de maneira bastante intensa. Com efeito, creio que o surgimento do hábito da leitura não depende apenas do fato de se ganhar livros, afinal, a própria pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” (2011), de onde a estatística que citamos no início deste texto foi tirada, informa que 60% dos leitores também nunca foram presenteados com livros.

Como se vê, o fato de não ganhar livros não impede totalmente que o gosto pela leitura apareça. Mas, se o estímulo a esse hábito tão importante não vem de casa e nem dos amigos, de onde ele pode vir? É aqui que rememoro a minha trajetória pessoal. No meu caso, ler tornou-se um hábito a partir de 1999, quando fui estudar na Escola Estadual Professor Vicente Lopes Perez, situada na cidade de Monte Carmelo (MG). Naquele colégio, conhecido por “Polivalente”, havia uma bem organizada biblioteca escolar localizada em um ponto estratégico e que contava com bibliotecárias atenciosas. Aquele era um lugar confortável para se estar, que convidava o aluno a entrar e o estimulava a explorar o acervo de livros ali existente.

Penso que este deve ser um exemplo para as bibliotecas de nossas escolas hoje. A biblioteca escolar precisa ser um lugar capaz de atrair o aluno. Infelizmente, em muitos de nossos estabelecimentos de ensino, estes espaços estão escondidos, não contam com uma organização eficiente e não são nada atraentes para os estudantes. Ora, se a criança ou o adolescente não tiver um estímulo à leitura nem em casa e nem na escola, aí sim acredito que esse hábito pode não surgir. Restará em casos assim, talvez, torcer para que o jovem adquira o gosto pela leitura por meio de outros caminhos.

No meu caso, a biblioteca escolar do Polivalente de Monte Carmelo foi fundamental na minha formação. Gosto de pensar que aquelas estantes cheias de livros mudaram a minha vida. Devo muito do que sou àquela biblioteca e deixo aqui registrada a minha profunda gratidão.



(Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 31 de janeiro de 2014.)

O Cinema Alemão e a Ascensão de Hitler



Quando o assunto é o nazismo, muitos se perguntam: afinal de contas, como os alemães puderam apoiar Adolf Hitler? Trata-se de uma difícil questão, e muitos foram os estudiosos que tentaram respondê-la. Um deles foi Siegfried Kracauer, que em 1947 publicou o livro De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão. Escrita por um autor que teve que fugir da Alemanha nazista para Paris em 1933, indo depois para os Estados Unidos em 1941, a obra é um esforço de Kracauer em tentar entender o processo que levou Hitler ao poder.
A hipótese trabalhada no livro é instigante: havia entre os alemães um “mal-estar psicológico” já durante a década de 1910. Sob esse prisma, o autor se volta para as produções do cinema alemão das primeiras décadas do século 20 e afirma: “através de uma análise dos filmes alemães, pode-se expor as profundas tendências psicológicas predominantes na Alemanha de 1918 a 1933, tendências que influenciaram o curso dos acontecimentos no período de tempo acima mencionado”.
Kracauer analisa os aspectos estéticos e os temas recorrentes em tais produções e observa que muitos dos filmes da época contavam histórias sombrias, de homicídios, tiranos, violência, etc. Por ser o cinema uma arte coletiva voltada para o consumo das massas, o autor defende que tais aspectos do cinema alemão daquele período dialogavam perfeitamente com o “padrão psicológico vigente” na Alemanha, padrão esse que, segundo Kracauer, esteve intimamente relacionado tanto à ascensão de Hitler ao poder quanto ao holocausto.
O que dizer de tal hipótese? É certo que o livro foi publicado após a 2ª Guerra Mundial, quando os horrores do extermínio dos judeus já eram conhecidos. Neste sentido, por vezes, Kracauer parece procurar a qualquer custo paralelos entre as histórias contadas nos filmes e as histórias reais em torno do nazismo. Por outro lado, um filme como ‘ “Homunculus”, de 1916, chama a atenção ao contar a história de um sofrido homem que foi criado em um tubo de ensaio e que se torna ditador de um grande país, sendo o responsável por uma guerra mundial. Tais semelhanças com Hitler impressionam Kracauer, e também a nós, seus leitores.
Concordemos ou não com a análise feita nas páginas do livro, o fato é que o cinema alemão em suas primeiras décadas parece mesmo ter antecipado eventos atinentes ao nazismo. Como bem disse Kracauer, “importantes personagens cinematográficos se tornaram verdadeiros na vida real” da Alemanha. É mesmo para se pensar…
(Texto originalmente publicado na Coluna do NEHAC do Jornal Correio de Uberlândia de 16 de agosto de 2013.)